A história da criminologia costuma ser apresentada em etapas ligadas às principais escolas: pré‑científica (pensamentos esparsos sobre crime), Escola Clássica, Escola Positiva, escolas sociológicas e criminologia crítica/contemporânea.

1. Panorama histórico geral

  • Antes de se consolidar como ciência, ideias sobre crime e punição estavam ligadas à moral, à religião e ao direito penal clássico, sem método empírico próprio.

  • A partir do século XIX, com a Escola Positiva, a criminologia assume pretensão científica, evoluindo depois para abordagens sociológicas e críticas que problematizam poder, desigualdade e construção social do crime.

2. Principais fases e escolas (visão em tabela)

Fase / escola Período aproximado Ideias centrais sobre crime e criminoso Autores-chave / traços marcantes
Pré‑científica Até séc. XVIII Explicações morais, religiosas ou filosóficas; crime visto como pecado ou escolha livre a ser punida exemplarmente.  Pensamento penal medieval e moderno; forte influência do direito penal clássico.
Escola Clássica Fim séc. XVIII – séc. XIX Livre‑arbítrio, responsabilidade moral, pena como retribuição e prevenção geral; crime como escolha racional.  Cesare Beccaria, Jeremy Bentham; foco em legalidade, proporcionalidade e culpabilidade. 
Escola Positiva Fim séc. XIX – início séc. XX Determinismo; crime como produto de fatores biológicos, psicológicos e sociais; criminoso visto como “anormal”.  Lombroso, Ferri, Garofalo; fases antropológica, sociológica e jurídico‑penal. 
Escolas sociológicas Início – meados séc. XX Crime como fenômeno social: anomia, desorganização, subcultura, diferenciação social.  Durkheim, Escola de Chicago, Merton, Sutherland (associação diferencial). 
Teorias da reação social Décadas de 1960–1970 Foco na rotulação: crime como construção social; atenção à seletividade e ao papel das instituições.  Labelling approach, interacionismo simbólico; Becker, Lemert. 
Criminologia crítica A partir de 1960–1970 Influência marxista e neomarxista; crime relacionado a poder, classe, capitalismo; crítica à neutralidade do sistema penal.  Nova Criminologia, teoria do conflito, abolicionismo; Taylor, Walton, Young, Rusche & Kirchheimer. 
Criminologia contemporânea Final séc. XX – séc. XXI Integração de abordagens: vitimologia, gênero, raça, crimes de colarinho branco, crime organizado, criminologia cultural.  Criminologia feminista, verde, cultural, crítica ao controle penal de massas. 
 
 

3. Destaques de escolas clássica e positiva

  • Escola Clássica: surgida em reação ao arbítrio penal, defendendo leis claras, penas proporcionais e racionalização do sistema, sem ainda constituir criminologia empírica; o foco é normativo.

  • Escola Positiva: marca o nascimento da criminologia científica ao aplicar método empírico‑experimental ao estudo do criminoso, com ênfase inicial no biológico (Lombroso), depois em fatores sociais (Ferri) e no conceito de “delito natural” (Garofalo).

Tabela – Clássica x Positiva em criminologia

Elemento Escola Clássica Escola Positiva
Visão de crime Resultado de escolha livre e racional.  Resultado de fatores determinantes (biológicos, psicológicos, sociais). 
Pena Retributiva e preventiva geral; proporcional à gravidade legal.  Instrumento de defesa social e tratamento; ajustada à periculosidade. 
Método Dedutivo, filosófico‑jurídico, normativo.  Empírico, estatístico, clínico, observacional. 
Foco Fato típico e responsabilidade moral.  Sujeito delinquente, causas e periculosidade. 
 
 

4. Virada sociológica e crítica

  • A partir do século XX, as teorias sociológicas deslocam o foco do indivíduo para a estrutura social, explicando crime por anomia, desigualdades, desorganização urbana e processos de aprendizado em grupos.

  • A criminologia crítica, desde os anos 1960, passa a tratar crime e sistema penal como fenômenos ligados a conflitos de classe, raça e poder, questionando o mito de neutralidade do direito penal e enfatizando seletividade e criminalização da pobreza.

5. Criminologia contemporânea

  • Hoje a criminologia é campo plural, que incorpora vitimologia, estudos de gênero, criminologia verde e cultural, análise de crimes econômicos e cibernéticos, mantendo diálogo intenso com direitos humanos e políticas públicas.

  • A evolução histórica mostra um movimento de ampliação de objeto (do criminoso para crime, vítima e controle social) e de sofisticação crítica, aproximando a criminologia de uma ciência social complexa e reflexiva sobre o próprio sistema penal.

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